Friday, 2 January 2009

Hogmanay e o Mito do Natal

Este fim de ano decidi ir até Edinburgo e participar no festival de rua Hogmanay. Tal como prometiam, é um espectáculo inesquecível. As ruas principais de Edinburgo são fechadas ao trânsito, e são montados vários palcos onde durante toda a noite de 31 de Dezembro várias bandas tocam ao vivo para entreter os participantes. Dos vários palcos, aquele que reuniu mais pessoas foi o palco onde se tocava música de "Ceilidh", uma dança tradicional celta, e muito muito antiga, batendo o moderno "pop" e "rock n'roll", ou a música electrónica que tocava noutros palcos, claramente mais vazios. Mas afinal, o que é o Hogmanay?


A resposta mais simples é que Hogmanay é uma celebração do solstício de Inverno, na versão das tribos do norte da Europa, como os celtas ou os vikings. De facto, existem inúmeras versões desta celebração, e remonta a tempos tão antigos como a idade do bronze (à volta de 3000 anos antes de Cristo), mas todas elas têm em comum a celebração de um novo ciclo, marcado pelo solstício de Inverno. Isto tem um sentido prático, pois o solstício de Inverno, marca o dia mais curto do ano, após o qual os dias começam a crescer em duração, e em que a época de maior produtividade agrícola se começa a aproximar. Ou seja, começava o novo ano com o "renascimento" do Sol! Para as pessoas da idade do Bronze (e provavelmente mais anteriores) este era um acontecimento para se celebrar, dado que eles eram extremamente dependentes das suas culturas e do seu gado. Existe assim uma razão muto prática e lógica para esta celebração. Mas exactamente quando é que é o Solstício de Inverno?


Segundo o calendário actual, o solstício de Inverno calha por volta do dia 21 de Dezembro, mas isto apenas desde a altura em que o papa Gregório XIII decidiu, em 1582, mudar o calendário que teria estado em vigor desde o ano 45 antes de Cristo. Segundo o calendário Juliano, O solstício calha no dia 25 de Dezembro!!! O que me leva à segunda parte do título do post.

Segundo o conhecimento geral, o Natal é celebrado no dia 25 de Dezembro, porque foi esse o dia em que Jesus Cristo nasceu. Tanga!!!! Ninguém sabe o dia exacto em que Cristo nasceu, nem nunca ninguém poderá saber. Se de facto existiu um homem chamado Jesus de Nazaré que foi crucificado aos 33 anos por motivos políticos/religiosos, e cuja vida é descrita de forma mais ou menos fidedigna na bíblia, então esse homem nasceu no seio de uma família simples e pobre, numa altura em que não haviam nem maternidades nem certidões de nascimento. Ou seja, a data perdeu-se para sempre. A escolha do 25 de Dezembro é de facto simples, e foi uma manobra política extremamente inteligente levada a cabo pelo império políticamente mais genial da história, o império romano.

Quando o império romano decidiu adoptar a religião católica como religião oficial, viu-se confrontado com uma questão bastante complexa. Como forçar milhares de pessoas a mudarem os seus costumes e adoptarem um conjunto de crenças e tradições completamente diferentes? A resposta é simples, não se força. Deixa-los continuar com as suas tradições, mas ensinem às novas gerações que o motivo é completamente diferente. A celebração do solstício de Inverno era a maior celebração da época, com vários de dias de festa e excessos. Como tal, era o candidato perfeito para marcar o nascimento da personalidade mais importante da nova religião. De facto, esta técnica foi tão eficiente, que toda a Europa actualmente pensa que o dia 25 de Dezembro marca o nascimento de Cristo... todos menos os Escoceses que nunca foram conquistados pelos romanos. De facto, o império romano nunca foi além da muralha de Hadrian, e o único imperador a visitar a ilha britânica foi Júlio César, tal era o medo que os romanos tinham dos escoceses. De facto, os irredutíveis de Hergé existiram, mas na Britânia e não na Bretanha!!!


Curiosamente, as religiões protestantes contribuiram para que tal fosse reconhecido ao tentarem proibir esta celebração. Na escócia, até a meio do século passado, o dia de Natal era um dia de trabalho normal por influência da Igreja protestante Escocesa, e em Inglaterra o mesmo aconteceu numa altura em que uma certa facção religiosa (os Puritanos) tomou controlo do Parlamento, e conseguiu passar uma lei a proibir o feriado no Natal. De facto, o 25 de Dezembro não marca nenhuma ocasião cristã, mas sim um ritual pagão de adoração ao Sol. E toda a gente sabe que, segundo os protestantes, se não vem na bíblia, nunca existiu e/ou não leva à salvação (antes pelo contrário!).

O que me leva de volta ao tal palco de música "Ceilidh", onde milhares de pessoas se reuniram para dançar danças tradicionais escocesas. O ambiente era tão contagiante, que a certa altura, todas as pessoas dançavam umas com as outras. Velhos com novos, mulheres com homens, ricos com pobres, feios com bonitos, escoceses com não escoceses, Europeus com não Europeus, cristãos com muçulmanos, ateus com religiosos, etc., etc.. Não interessava de onde a pessoa do lado vinha, nem qual o seu aspecto, mas só interessava trocar de par frequentemente e celebrar o novo ano, o novo ciclo que se aproxima, a época em que tudo volta a crescer. No fim, a caminho do hotel, apertei a mão aos funcionários da festa, aos polícias, ao motorista do autocarro, ao dono do hotel, a todos com um sorriso e a desejar "Happy New Year", recebendo prontamente o mesmo cumprimento. Ninguém nunca referiu Deus, Cristo, a Virgem Maria ou o Espírito Santo, e nunca ninguém precisou. De facto, nenhuma destas entidades foi precisa para gerar o maior espectáculo de união e confraternização entre pessoas que já vi. O que mostra que, mesmo a conversa de que o Natal é uma época de compreensão de união, e o diabo a quatro, não vem de Cristo, mas existia já muito antes na maior celebração pagã da Europa.


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