Saturday, 20 December 2008

A Evolução de Noé - Parte 1

De há uns meses para cá que sigo as investidas que o dracolino Sabido faz à teoria da evolução. Bom, dizer ataque à teoria da evolução não é muito correcto, uma vez que nem sempre é muito claro o que é que ele pretende atacar. Por vezes é o "darwinismo", outras vezes é apenas a macroevolução, outras vezes o mais elementar senso comum.

Numa série recente de posts decidiu explicar como é possível que Noé tenha levado tantos animais na sua arca (no fim de contas, actualmente temos milhões de espécies, sendo que cada dia se descobrem espécies novas).

Para começar, o Sabido decide fazer uma manobra de diversão dizendo que o conceito de espécie utilizado actualmente não corresponde ao conceito de espécie bíblico. Para tal decide utilizar o conceito de espécie:

"Em 1942, Ernst Mayr definiu espécie como um grupo de organismos que acasalam entre si e geram descendência fértil, estando isolados, em termos reproductivos, de outros grupos."

Aqui começam os problemas. Primeiro que tudo a definição de Mayr não é bem a que o réptil apresenta, mas vamos ignorar isso por agora. O importante é que em vez de utilizar uma definição mais actual (e mais consensual) utiliza uma definição que começou a ser formada em 1944 (e não 1942 como afirma; a primeira vez que Ernst Mayr tentou definir o que era uma espécie foi num artigo de 1944, e a definição de então pouco tinha a ver com a que começou a adoptar mais tarde). Mas os problemas não acabam aqui. De facto, a ideia de que a capacidade de reprodução define uma espécie remonta a tempos bem mais antigos, nomeadamente 1735 quando Lineu (um criacionista) decidiu organizar a obra de Deus. Parece até que Lineu tinha uma certa obsessão com o sexo (vade retro belzebu!!) uma vez que várias espécies que ele classificou têm nomes como fornicata ou clitoria!! O problema desta ideia é, como o Sabido tentou demonstrar, que algumas das "espécies" assim definidas começaram a hibridizar em laboratório apesar de nunca o fazerem na natureza.

A demonstração, no entanto, foi uma autêntica desgraça. Grande parte dos exemplos que dá de hibridação entre espécies resultam em híbiidos inférteis, ou seja becos sem saída. Apesar de indivíduos poderem cruzar-se e originar um híbrido, a espécie como um conjunto permanece intacta (como por exemplo, o burro e a zebra). Noutros casos, os híbridos apenas existem em condições artificiais, sendo que na natureza as espécies permanecem isoladas (caso do wolphin, que ao contrário do que o réptil diz, é um cruzament0 entre duas espécies de golfinho e não entre uma baleia e um golfinho, ou seja, dentro da mesma família). Outros ainda representam cruzamentos entre uma espécie e os animais domésticos a que essa mesma espécie deu origem, não representando espécies "naturais".

Ou seja, a argumentação do réptil começa logo mal e mostra como deturpa factos da forma que lhe convêm. Também pudera, tendo em conta que foi buscar a lista de híbridos a um "Top 10" de coisas fixes, não poderia saber muito sobre as bases biológicas dos exemplos que dá. Da mesma forma preferiu ir buscar definição de espécie a um texto manhoso cuja autoria é obscura, em vez de, por exemplo, ir a uma Wikipédia ver que a questão afinal, não é tão óbvia assim. Finalmente, se ele tivesse lido o livro que tanto critica (A Origem das Espécies) teria percebido que não é o primeiro a criticar o significado biológico da categoria espécie. Não deixa de ser irónico que na sua tentativa de destruir a teoria que tanto abomina acabe por adoptar alguns dos seus fundamentos mais básicos. Mas vou deixar isso para ele descobrir quando finalmente acabar de decorar a bíblia e comece a ler outras coisas.

Mas não acaba aqui, e o que está para vir é ainda mais irónico (e diria,cómico). Por isso fiquem para ver a segunda parte...

5 comments:

Anonymous said...

"Numa série recente de posts decidiu explicar como é possível que Noé tenha levado tantos animais na sua arca (no fim de contas, actualmente temos milhões de espécies, sendo que cada dia se descobrem espécies novas)."

O post serviu para dizer que a "espécie" referida na bíblia não tem o mesmo significado do que a "espécie" de hoje. Noé não levou 7 casais de cada uma das 300 "espécies" de cães existentes hoje. Levou 7 casais de cães.

Chamas-lhe o quiseres, manobra de diversão ou outra coisa qualquer, mas é a verdade. Eu sei como te sentes. Tu vês que o problema de noé levar tantos animais na arca não é assim tão grande problema quando se tem em mente que apenas levou representantes de cada tipo de animal, e não representantes de cada variação do mesmo animal que existe hoje.

"caso do wolphin, que ao contrário do que o réptil diz, é um cruzament0 entre duas espécies de golfinho e não entre uma baleia e um golfinho, ou seja, dentro da mesma família)"

O hibrido foi entre uma orca e um golfinho nariz de garrafa. "Espécies" diferentes, e até "géneros" diferentes. Ao referires-te ao "dentro da mesma família", estás precisamente a tocar no meu ponto. A "espécie" como a entendes hoje é totalmente diferente da "espécie" bíblica. Se fosses inglês nem sequer estarias a discutir essa questão, já que a bíblia diz tem o termo "espécie" traduzido por "kind" - tipo - definição mais verosímel.

Apesar de tudo, o caso deste hibrido é totalmente irrelevante para o episódio da arca. Animais marinhos não foram na arca.

"Também pudera, tendo em conta que foi buscar a lista de híbridos a um "Top 10" de coisas fixes"

Os casos não são inventados, tótó. Estão todos documentados em publicações. Eu coloco links que possam estar acessíveis aos leitores. Ou preferias que colocasse a bibliografia do livro do John Woodmorappe?

É engraçado citares a Wikipedia... como se fosse uma fonte de autoridade.

Beowulf said...

Olá Sabino! Espera que ainda não acabei!

"O hibrido foi entre uma orca e um golfinho nariz de garrafa. "

Não Sabino,foi entre uma falsa-orca (Pseudorca crassidens) e um roaz-corvineiro (Tursiops truncatus). Se tivesses lido as tais referências científicas já sabias isto há muito.

"É engraçado citares a Wikipedia... como se fosse uma fonte de autoridade."

Eu não citei a Wikipedia como fonte de autoridade. Usei apenas para demonstrar que até na Wikipedia, uma fonteacessível a todos, estálá explicado que a questão da definição de espécie não é tão simples e consensual como quiseste fazer parecer. Eu sei que não gostas quando alguém demonstra a tua ignorância (ou será desonestidade?!), mas espera, o melhor ainda está para vir!

natenine said...

Se quiseres que alguém leia os teus textos, põe letras escuras sobre fundo claro.

Beowulf said...

Natenine, obrigado pelo comentário. Encara isto da seguinte forma: quem estiver mesmo interessado em aprender faz um esforcinho e lê na mesma! Fora de brincadeiras, a estética é importante, mas ainda bem que não gostamos todos da mesma coisa!! :)

Lucas said...

Mas o facto de o fundo ser escuro pode matar o interesse das pessoas.

Não sejas teimoso, Beowulf! :-D